LITERATURA BRASILEIRA
Textos literrios em meio eletrnico
Decadncia de dois grandes homens, de Machado de Assis


Edio referncia: http://www2.uol.com.br/machadodeassis 
Publicado originalmente em Jornal das Famlias 1873 

Os antigos freqentadores do Caf Carceller ho de recordar-se de um velho que ali ia 
todas as manhs s oito horas, almoava, lia os jornais, fumava um charuto, dormia cerca 
de meia hora e saa. Estando de passagem no Rio de Janeiro, aonde viera para tratar 
questes polticas com os ministros, atirei-me ao prazer de estudar todos os originais que 
encontrava, e no tenho dvida em confessar que at ento s tinha encontrado cpias. 
O velho apareceu a tempo; tratei de analisar o tipo. 
Era meu costume  costume das montanhas mineiras  acordar cedo e almoar cedo. 
Ia faz-lo ao Carceller, justamente  hora do velho, dos empregados pblicos e dos 
escreventes de cartrio. Sentava-me  mesa que enfrentava com a do velho, e que era a 
penltima do lado esquerdo contando do fundo para a rua. Era ele homem de seus 
cinqenta anos, barbas brancas, olhos encovados, cor amarela, algum abdome, mos 
ossudas e compridas. Comia vagarosamente algumas fatias de po-de-l e uma chvena 
de chocolate. Durante o almoo no lia; mas apenas acabado o chocolate, acendia um 
charuto que tirava do bolso, que era sempre do mesmo tamanho, e que no fim de certo 
tempo tinha a virtude de o fazer adormecer e deixar cair das mos o jornal que estivesse 
lendo. Encostava ento a cabea  parede, e dormia plcido e risonho como se algum 
sonho agradvel lhe estivesse danando no esprito; s vezes abria os olhos, 
contemplava o vcuo, e continuava a dormir tranqilamente. 
Indaguei do caixeiro quem era aquele fregus. 

 No sei, respondeu; almoa aqui h quatro anos, todos os dias,  mesma hora.
 Tem ele por aqui algum conhecido?
 Nenhum; aparece s e retira-se s.
Aguava-me a curiosidade. Ningum conhecia o velho; era mais uma razo para
conhec-lo eu. Procurei travar conversa com o desconhecido, e aproveitei uma ocasio
em que ele acabava de engolir o chocolate e procurava com os olhos algum jornal.
 Aqui est este, disse-lhe eu, indo levar-lhe.
 Obrigado, respondeu-me o homem sem levantar os olhos e abrindo a folha.
No obtendo mais nada, quis travar conversa por outro modo.
 Traz hoje um magnfico artigo sobre a guerra.
 Ah! disse o velho com indiferena.
Nada mais.
Voltei ao meu lugar disposto a esperar que o velho lesse, dormisse e acordasse.
Pacincia de curioso, que ningum a tem maior, nem mais fria. Ao cabo do tempo do
costume tinha o homem lido, fumado e dormido. Acordou, pagou o almoo e saiu.
Acompanhei-o imediatamente; mas o homem tendo chegado  esquina, voltou e foi at 
outra esquina, aonde se demorou, seguiu por uma rua, tomou a parar e a voltar, a ponto
que eu desisti de saber onde iria ele ter, tanto mais que nesse dia devia entender-me com
um dos membros do governo, e no podia perder a ocasio.
Quando no dia seguinte, eram 15 de maro, voltei ao Carceller, encontrei l com o meu
homem, assentado no lugar do costume; estava acabando de almoar, almocei tambm;
mas desta vez guardou-me o misterioso velho uma surpresa; em vez de pedir um jornal e
fumar um charuto, encostou a cara nas mos e comeou a olhar para mim.
 Bom, disse eu; est amansado. Naturalmente vai dizer-me alguma coisa. Mas o
homem nada disse e continuou a olhar para mim. A expresso dos olhos, que de ordinrio
era morta e triste, nessa ocasio tinha um qu de terror. Supondo que ele quisesse dizer
me alguma coisa, fui o primeiro a dirigir-lhe a palavra.

 No l hoje os jornais? 
 No, respondeu-me ele com voz sombria; estou pensando... 
 Em qu?
O velho fez um movimento nervoso com a cabea e disse:
 So chegados os idos de maro!
Estremeci ouvindo esta singular resposta, e o velho, como se no visse o movimento,
continuou:
 Compreende, no?  hoje um tristssimo aniversrio.
 A morte de Csar? perguntei eu rindo.
 Sim, respondeu o velho com voz cavernosa.
No tinha que ver; era algum homem manaco; mas que haveria de comum entre ele e o
vencedor das Glias? A curiosidade cresceu; e aproveitei a disposio em que o velho
estava de travar conhecimento. Levantei-me e fui sentar-me  mesa dele.
 Mas que tem o senhor com a morte de Csar?
 O que tenho com a morte daquele grande homem? Tudo.
 Como assim?
O velho abriu a boca e ia responder, mas a palavra ficou-lhe no ar e o homem voltou 
taciturnidade habitual. Ocupei esse tempo em contempl-lo mais detidamente e de perto.
Olhava ele para a mesa, com as mos postas debaixo das orelhas; os msculos do rosto
estremeciam de quando em quando, e os olhos rolavam dentro das rbitas como favas
nadando em prato de molho. No fim de algum tempo olhou para mim, e eu aproveitei a
ocasio para dizer-lhe:
 Quer um charuto?
 Obrigado; eu s fumo dos meus; so charutos opiados, grande recurso para quem
quer esquecer um grande crime. Quer um?
 No tenho crimes.
 No importa; colher prazer em fum-lo.
Aceitei o charuto, e guardei-o.
 Consente que o guarde?
 Pois no, respondeu ele.
Outro silncio mais prolongado. Vi que o homem no estava para conversa; a fronte se
lhe entristecia cada vez mais como a Tijuca quando est para cair temporal. Ao cabo de
alguns minutos, disse-lhe eu:
 Simpatizo muito com o senhor, quer que eu seja seu amigo?
Luziram os olhos do homem.
 Meu amigo? disse ele; oh! por que no? preciso de um, mas de um amigo verdadeiro.
Estendeu-me a mo, que eu lhe apertei com afeto.
 Como se chama? perguntei eu.
Sorriu o velho, soltou das cavernas do peito um longo e magoadssimo suspiro, e
respondeu-me:
 Jaime. E o senhor?
 Miranda, doutor em medicina.
  brasileiro?
 Sim, senhor.
 Meu patrcio ento?
 Creio.
 Meu patrcio!...
E dizendo isto o velho teve um sorriso to infernal, to sombrio, to lgubre, que eu tive
idia de me ir embora. Reteve-me a curiosidade de chegar ao fim. Jaime no prestava
ateno ao que se passava ali; e exclamava de quando em quando:
 Os idos de maro! os idos de maro!
 Olhe, meu amigo sr. Jaime, quer ir dar um passeio comigo?
Aceitou sem dizer palavra. Quando nos achamos na rua perguntei-lhe se preferia algum
lugar.

Respondeu-me que no. 
Andamos ao acaso; eu procurava travar conversa a fim de distrair o homem dos idos de 
maro; e consegui a pouco e pouco que se tornasse mais conversador. Era ento 
aprecivel. No falava sem gesticular com o brao esquerdo, com a mo fechada, e o 
dedo polegar aberto. Contava anedotas de mulheres e mostrava-se grande apreciador do 
sexo amvel; era exmio na descrio da beleza feminina. A conversa passou  histria, e 
Jaime exaltou os tempos antigos, a virtude romana, as pginas de Plutarco, Tito Lvio e 
Suetnio. Sabia o Tcito de cor e dormia com Virglio, disse ele. Seria um doido, mas 
conversava com muito juzo. 
Sobre a tarde tive fome e convidei-o a jantar. 

 Comerei pouco, respondeu Jaime; estou indisposto. Ai! os idos de maro!
Jantamos em hotel, e eu quis acompanh-lo a casa, que era na Rua da Misericrdia.
Consentiu nisso com verdadeira exploso de alegria. A casa dizia com o dono. Duas
estantes, um globo, vrios alfarrbios espalhados no cho, uma parte sobre uma mesa, e
uma cama antiga.
Eram seis horas da tarde quando entramos. Jaime tremia quando chegou  porta da sala.
 Que tem? perguntei-lhe eu.
 Nada, nada.
Mal entrvamos na sala, pulou da mesa, onde se achava acocorado, um enorme gato
preto. No fugiu; saltou aos ombros de Jaime. Este tremeu todo e procurou aquietar o
animal passando-lhe a mo pelo lombo.
 Sossega, Jlio! dizia ele, enquanto eu com o olhar inspecionava o albergue do homem
e procurava cadeira onde me sentasse.
O gato pulou depois  mesa e fitou em mim dois grandes olhos verdes, fulminantes,
interrogadores; compreendi o susto do velho. O gato era modelo na espcie; tinha certo ar
de ferocidade da ona, de que era miniatura acabada. Era todo preto, pernas compridas,
longas barbas; gordo e alto, tendo uma extensa cauda que brincava no ar dando saltos
caprichosos. Tive sempre antipatia aos gatos; aquele causava-me horror. Parecia-me que
ia saltar sobre mim e esganar-me com as largas patas.
 Mande o seu gato embora, disse eu a Jaime.
 No faz mal, respondeu-me o velho. Jlio Csar, no  verdade que tu no fazes mal a
este senhor?
O gato voltou-se para ele; e Jaime beijou repetidas vezes a cabea do gato. Do susto
passara  efuso. Compreendi que seria pueril assustar-me quando o animal era to
manso, ainda que no compreendi o medo do velho quando entrou. Haveria alguma coisa
entre aquele homem e aquele bicho? No pude explic-lo. Jaime acariciou o gato
enquanto eu por me distrair lia o ttulo das obras que estavam nas estantes. Um dos livros
tinha no lombo este ttulo: Metempsicose.
 Acredita na metempsicose? perguntei eu.
O velho, que estava ocupado em tirar o palet e vestir um chambre de chita amarela,
interrompeu aquele servio, para dizer-me:
 Se acredito? Em que queria o senhor que eu acreditasse?
 Um homem instrudo, como o senhor, no devia crer em tolices desta ordem, respondi
abrindo a livro.
Jaime acabou de vestir o chambre, e veio a mim.
 Meu caro senhor, disse ele; no zombe assim da verdade; nem zombe nunca de
filosofia nenhuma. Toda a filosofia pode ser verdadeira; a ignorncia dos homens  que
faz de uma ou de outra crena da moda. Contudo para mim, que as conheci todas, s
uma  a verdadeira, e  essa a que alude o senhor com tanto desdm.
 Mas...
 No me interrompa, disse ele; quero convenc-lo.
Levou-me a uma poltrona de couro e obrigou-me a sentar ali. Depois foi sentar-se ao p
da mesa, em frente a mim e comeou a desenvolver a sua teoria, que eu ouvi sem
pestanejar. Jaime tinha a palavra fcil, ardente, impetuosa; animavam-se-lhe os olhos,

tremia-lhe o lbio, e a mo, a famosa mo esquerda, agitava no ar o dedo polegar aberto 
e curvo como um ponto de interrogao. 
Ouvi o discurso do homem, e no ousei contestar-lhe. Era evidentemente um doido; e 
ningum discute com homem doido. Jaime acabou de falar e caiu numa espcie de 
prostrao. Cerrou os olhos e ficou insensvel alguns minutos. O gato saltou  mesa, 
entre mim e ele, e comeou a passar a mo pela cara de Jaime, o que o fez despertar 
daquele abatimento. 

 Jlio! Jlio! exclamava ele beijando o gato; ser hoje? ser hoje?
Jlio no parecia entender a pergunta; alteou o lombo, descreveu com a cauda algumas
figuras geomtricas no ar, deu dois saltos e pulou ao cho.
Jaime acendeu um lampio, enquanto eu me levantava para me ir embora.
 No se v, meu amigo, disse-me Jaime; peo-lhe um favor.
 Qual?
 Fique comigo at a meia-noite.
 No posso.
 Por qu? no imagina que favor me faria!
 Tem medo?
 Hoje tenho: so os idos de maro.
Consenti em ficar.
 No me dir, perguntei eu, que tem o senhor com os idos de maro?
 Que tenho? disse Jaime com os olhos em fogo. No sabe quem sou?
 Pouco sei.
 No sabe nada.
Jaime inclinou-se sobre a mesa e disse-me ao ouvido:
 Sou Marco Bruto!
Por mais extravagante que estas palavras paream ao frio leitor, confesso que me
causaram profunda sensao. Recuei a cadeira e contemplei a cabea do velho.
Pareceu-me que a iluminava a virtude romana. Os olhos tinham fulgores de padre
conscrito; o lbio parecia estar fazendo uma orao  liberdade. Durante alguns minutos
saboreou ele silenciosamente a minha silenciosa admirao. Depois, sentando-se outra
vez:
 Marco Bruto sou, disse, ainda que esta revelao lhe cause espanto. Sou aquele que
encabeou a momentnea vitria da liberdade, o assassino (em que me pese o nome!), o
assassino do divino Jlio.
E voltando os olhos para o gato, que estava sobre uma cadeira, entrou a contempl-lo
com urna expresso de arrependimento e dor. O gato fitou nele os olhos verdes,
redondos, e nesta contemplao recproca ficaram at que eu para obter maior explicao
do que presenciava, perguntei ao velho:
 Mas, sr. Bruto, se  aquele grande homem que assassinou Csar por que receia os
idos de maro? Csar no voltou c.
 A causa do meu receio ningum a sabe; mas eu lhe direi francamente, pois  o nico
homem que tem mostrado interesse por mim. Receio os idos de maro, porque...
Estacou; enorme trovo rolou nos ares e pareceu abalar a casa at os alicerces. O velho
ergueu os braos e os olhos para o teto e fez mentalmente uma prece a algum deus do
paganismo.
 Ser a hora? perguntou ele baixinho.
 De qu? perguntei.
 Do castigo. Oua, mancebo; o senhor  filho de um sculo sem f nem filosofia; no
conhece o que  a clera dos deuses. Tambm eu nasci neste sculo; mas trouxe comigo
as virtudes da minha primeira apario na terra: corpo de Jaime, alma de Bruto.
 Ento j morreu antes de ser Jaime?
 Sem dvida;  sabido que morri; ainda que eu desejasse neg-lo, a estaria a Histria
para dizer o contrrio. Morri; sculos depois, voltei ao mundo com esta forma que v;
agora voltarei a outra forma e...

Aqui o velho comeou a chorar. Consolei-o como pude, enquanto o gato, trepando  
mesa, veio acarici-lo com uma afeio bem contrria  ndole de uma ona. O velho 
agradeceu as minhas consolaes, e as carcias de Jlio. Aproveitei a ocasio para lhe 
dizer que efetivamente eu imaginava que o ilustre Bruto devia ter aquela figura. 
O velho sorriu. 

 Estou mais gordo, disse ele; naquele tempo eu era magro. Coisa natural; homem gordo
no faz revoluo. Bem o compreendia Csar quando dizia que no temia a Antnio e
Dolabela, mas sim queles dois sujeitos amarelos e magros e ramos Cssio e eu...
 Pensa ento o senhor que...
 Penso que homem gordo no faz revoluo. O abdome  naturalmente amigo da
ordem; o estmago pode destruir um imprio; mas h de ser antes de jantar. Quando
Catilina encabeou a clebre conjurao a quem foi procurar? Foi procurar a gente que
no tinha um sestrcio de seu; a turba dos clientes, que vivia de esprtulas, no os que
viviam pomposamente em Tsculo ou Baas.
Achei curiosa a doutrina e disse a propsito algumas palavras que nos distraram do
assunto principal.
O genro de Cato continuou:
 No lhe contarei, pois sabe a Histria, a conjurao dos idos de maro. Apenas lhe
direi que eu entrara naquela sinceramente, porquanto, como muito bem disse um poeta
ingls, que depois me meteu em cena, eu matei Csar, no por dio a Csar, mas por
amor da Repblica.
 Apoiado!
 O senhor  deputado? perguntou o velho sorrindo.
 No, senhor.
 Pensei. Aproveito a ocasio para dizer-lhe que a ttica parlamentar de tomar tempo
com discursos at o fim das sesses no  nova.
 Ah!
 Foi inventada por meu ilustre sogro, o incomparvel Cato, quando Csar, voltando
vencedor da Espanha, queria o triunfo e o consulado. A assemblia inclinava-se a favor
do pretendente; Cato no teve outro meio: subiu  tribuna e falou at a noite, falou sem
parar um minuto. Os ouvintes ficaram estafados com a arenga, e Csar vendo que no
podia ceder a um homem daquele calibre, dispensou o triunfo, e veio pleitear o consulado.
 De maneira que hoje quando um orador toma o tempo at o fim da hora?...
 Est na altura de Cato.
 Tomo nota.
 Ah! meu rico senhor, a vida  uma eterna repetio. Todos inventam o inventado.
 Tem razo.
 Matamos o divino Jlio, e mal lhe posso dizer o assombro que se seguiu ao nosso
crime... Crime lhe chamo porque reconheo hoje que o era; mas sou obrigado a dizer que
o ilustre Csar ofendera a majestade romana. Eu no fui o inventor da conjurao; toda a
gente estava inspirada dos meus desejos. Eu no podia entrar no senado que no
achasse essa cartinha:  ou ento: . De toda a parte me instigaram. Uniram-se todos os
dios ao meu, e o mundo presenciou aquela tremenda catstrofe...
Jaime ou Bruto, que eu realmente no sei como lhe chame, concentrou um pouco o seu
esprito; depois levantou-se, foi  porta, espiou, deu uma carreirinha e veio sentar-se
defronte de mim.
 H de ter lido que a sombra de Csar me apareceu depois duas vezes, sendo que, da
segunda, veio silenciosa e silenciosa foi.  um erro. Da segunda vez foi que eu ouvi
tremendo segredo que lhe vou revelar. No o disse a ningum por medo, e medo do que
se dissesse de mim. V, abra os ouvidos...
Nesse momento o gato comeou a dar saltos vertiginosos.
 Que diabo  isto? disse eu.
 No sei; creio que est com fome. So horas de cearmos.
Jaime-Bruto foi buscar a ceia do gato, e trouxe para a mesa um assado frio, po, queijo

ingls, e vinho italiano e figos secos. 

 Os vinhos italianos so uma recordao de minha vida anterior, disse ele. Quanto aos
figos, se no so de Tsculo, ao menos os fazem lembrar.
Comemos tranqilamente; eram ento oito horas, e o velho estava ansioso que batessem
as doze. Ao cabo de meia hora acendeu ele um charuto, e eu o mesmo que ele me havia
dado de manh, e continuamos a falar de Csar.
 Apareceu-me a sombra, disse ele, e desenrolou um libelo dos males que eu havia feito
 Repblica com a morte dele, e ao mesmo tempo acrescentou que o meu crime nada
salvara, pois era inevitvel a decadncia da Repblica. Como eu respondesse um pouco
irritado, a sombra soltou estas fatdicas palavras: 
Tirei o charuto da boca, e contemplei a cara do meu interlocutor. Era impossvel que no
estivesse prximo um acesso de loucura; mas o olhar do homem conservava a mesma
inteligncia e serenidade. Ele respirava a fumaa com delcias e olhava, ora para o teto,
ora para o gato.
  um doido manso, pensei eu, e continuei a fumar enquanto o velho continuou:
 Compreende o senhor por que motivo receio esses malditos idos de maro, aniversrio
do meu crime.
Atirou fora o charuto.
 No fuma? perguntei eu.
 Destes no fumo hoje.
 Quer dos meus?
 Aceito.
Dei-lhe um charuto, que ele acendeu, e eu continuei a fumar o dele, que me fazia sentir
delcias inefveis. Ia-se-me o corpo ficando mole; estendi-me na poltrona e prestei
ouvidos ao anfitrio.
Este passeava vagarosamente, gesticulando, rindo sem motivo, outras vezes chorando,
tudo como quem tem alguma mania na cabea.
 No me dir, perguntei eu, se  neste gato que est a alma de Jlio?
 Sem dvida,  neste bicho que se meteu a alma daquele grande homem, o primeiro do
universo.
O gato no pareceu reparar nessa adulao pstuma do nobre Bruto, e foi colocar-se no
sof em ao de querer dormir. Pus os olhos no animal, e admirei o que eram os destinos
humanos. Csar estava reduzido  condio de animal domstico! Aquele gato, que
estava ali diante de mim, tinha escrito os Comentrios, subjugado os Gauleses, vencido
Pompeu, destrudo a Repblica. Saciava-se agora com uma simples ceia, quando outrora
queria dominar todo o universo.
Jaime veio tirar-me das minhas cogitaes.
 Poderia eu ter alguma dvida acerca da identidade deste animal, disse ele; mas tudo
me prova que  ele o meu divino Jlio.
 Como?
 Apareceu-me aqui uma noite sem que a porta estivesse aberta e comeou a olhar para
mim. Quis p-lo fora; impossvel. Ento lembrou-me a ameaa da sombra.  , disse eu,
chamando o gato; e imediatamente comeou ele a fazer-me festas. Era fado ou ocasio:
mais tarde ou mais cedo o meu tmulo  o ventre deste nobre animal.
 Acho que no tem razo de crer...
 Ah! meu caro doutor...  razo e mais que razo. Quer ver? Jlio Csar!
O gato, apenas ouviu este nome, pulou do sof e comeou a dar saltos mortais por cima
de um Nigara imaginrio, a ponto de me obrigar a sair da cadeira e ir para o sof.
 Aquieta-te, Jlio! disse o velho.
O gato sossegou; trepou para uma poltrona e ali arranjou como a seu gosto.
Quanto a mim, sentindo no corpo um delicioso torpor, estendi-me no sof e continuei a
pasmar ouvindo a narrao do meu Jaime-Bruto.Durou esta ainda uma boa meia hora;
falou-me o homem das coisas da Repblica, da timidez de Ccero, da versatilidade do
povo, da magnanimidade de Csar, da poltica de Otvio. Elogiou muito a antiga esposa

de quem conservava eternas saudades; e por fim calou-se. 
Nenhum rumor, o trovo no trouxera chuva; as patrulhas andavam por longe; nenhum 
caminhante feria as pedras da rua. Eram mais de dez horas. O meu anfitrio, sentado na 
cadeira de couro, olhava para mim, abrindo dois grandes olhos e eis que estes comeam 
a crescer lentamente, e j ao fim de alguns minutos pareciam no tamanho e na cor as 
lanternas dos bondes de Botafogo. Depois, comearam a diminuir at ficarem muito 
abaixo do tamanho natural. A cara foi-se-lhe alongando e tomando propores de focinho; 
caram as barbas; achatou-se o nariz; diminuiu o corpo, assim como as mos; as roupas 
desapareceram; as carnes tomaram uma cor escura; saiu-lhe uma extensa cauda, e eis o 
ilustre Bruto, a saltar sobre a mesa, com as formas e as visagens de um rato. 
Senti os cabelos eriados; tremia-me o corpo; batia-me o corao. 
No mesmo instante, o gato saltou  mesa e avanou para ele. Fitaram-se alguns 
instantes, o que me trouxe  memria aqueles versos de Lucano, que o sr. Castilho Jos 
nos deu magistralmente assim: 
Nos altos, frente a frente, os dois caudilhos, 
Sfregos de ir-se s mos, j se acamparam. 
Aps curto silncio, o gato avanou para o rato; o rato pulou ao cho, e o gato atrs dele. 
Subiu o rato ao sof, e o gato tambm. Onde Bruto se escondesse, l se metia Csar, s 
vezes o primeiro encarava de frente o segundo, mas este no se assustava com isso, e 
avanava sempre. Gemidos e roncos ferozes eram a orquestra desta dana infernal. 
Exausto de uma luta impossvel, o rato deixou-se cair arquejante, e o gato ps-lhe a pata 
em cima. 
Que pena descreveria o olhar triunfante de Csar quando viu debaixo de si o miserando 
Bruto? No conheo nada em poesia ou pintura  nem sequer na msica chamada 
imitativa , nada conheo que produza a impresso que me produziu aquele grupo e 
aquele olhar. De uma rivalidade secular, que lutou  luz do sol e da Histria, passava-se 
ali o ltimo ato, dentro de uma sala obscura, tendo por espectador nico um provinciano 
curioso. 
O gato tirou a pata de cima do rato; este deu alguns passos; o gato tomou a peg-lo; 
repetiu a cena uma poro de vezes; e se isto era natural de um gato, no era digno de 
Csar. Acreditando que me ouvissem, exclamei: 

 No o tortures mais! 
O gato olhou para mim e pareceu compreender-me; efetivamente atirou-se ao rato com 
uma nsia de quem esperava h muito aquela ocasio. Vi  que horror!  vi o corpo do 
nobre Bruto passar todo ao estmago do divino Csar, vi isto, e no lhe pude valer, 
porque eu tinha a presuno de que as armas da terra nada podiam contra aquela lei do 
destino. 
O gato no sobreviveu  vingana. Apenas comeu o rato, caiu trmulo, miou alguns 
minutos e faleceu. 
Nada mais restava daqueles dois homens de Plutarco. 
Contemplei o quadro algum tempo; e fiz tais reflexes acerca das evolues histricas e 
das grandezas humanas, que bem podia escrever um livro que faria a admirao dos 
povos. 
De repente, duas luzes surgiram dos restos miserandos daquele par da Antigidade; duas 
luzes azuis, que subiram lentamente at o teto; o teto abriu-se e eu vi distintamente o 
firmamento estrelado. As luzes subiram no espao. 
Fora desconhecida me levantou tambm do sof, e eu acompanhei as luzes at meio 
caminho. Depois seguiram elas, e eu fiquei no espao, contemplando a cidade iluminada, 
tranqila e silenciosa. Fui transportado ao oceano, onde vi uma concha  minha espera, 
uma verdadeira concha mitolgica. Entrei nela e comecei a andar na direo do oeste. 
Prossegui esta amvel peregrinao de um modo verdadeiramente mgico. De repente 
senti que o meu nariz crescia desmesuradamente; admirei o sucesso, mas uma voz 
secreta me dizia que os narizes so sujeitos a transformaes inopinadas  razo pela 
qual no me admirei quando o meu apndice nasal assumiu sucessivamente a figura de 

um chapu, de um revlver e de uma jaboticaba. Voltei  cidade; e entrei nas ruas 
espantado, porque as casas me pareciam todas voltadas com os alicerces para cima, 
coisa sumamente contrria  lei das casas, que devem ter os alicerces embaixo. Todos 
me apertavam a mo e perguntavam se eu conhecia a ilha das chuvas, e como eu 
respondesse que no, fui levado  dita ilha que era a Praa da Constituio e mais o seu 
jardim pomposamente iluminado. 
Nesta preocupao andei at que fui levado outra vez  casa onde se passara a tragdia 
referida acima. A sala estava s; nem vestgio dos dois homens ilustres. O lampio estava 
a expiar. Sai aterrado e desci as escadas at chegar  porta onde achei a chave. No 
dormi nessa noite; a madrugada veio surpreender-me com os olhos abertos, 
contemplando de memria o miserando caso da vspera. 
Fui almoar ao Carceller. 
Qual no foi o meu espanto quando l encontrei vivo e so aquele que eu supunha na 
eternidade? 

 Venha c, venha c! disse ele. Por que saiu ontem de casa sem falar?
 Mas... o senhor... pois Csar no o engoliu?
 No. Esperei a hora fatal, e apenas ela passou, dei gritos de alegria e quis acord-lo;
mas o senhor dormia to profundamente que achei melhor ir fazer o mesmo.
 Cus! pois eu...
 Efeitos do charuto que lhe dei. Teve belos sonhos, no?
 Todos, no; sonhei que o gato o engolia...
 Ainda no... Agradeo-lhe a companhia; agora esperarei o ano que vem. Quer
almoar?
Almocei com o homem; no fim do almoo ofereceu-me ele um charuto, que eu recusei
dizendo:
 Nada, meu caro; vi coisas terrveis esta noite...
 Falta de costume...
 Talvez.
Sa triste. Procurava um homem original e achei um maluco. Os de juzo so todos
copiados uns dos outros. Consta-me at que aquele mesmo homem de Plutarco, fregus
do Carceller, curado por um hbil mdico, est agora to comum como os outros. Acabou
a originalidade com a maluquice. Tu quoque, Brute?
Ncleo de Pesquisas em Informtica, Literatura e Lingstica



